Ouvido biônico implantado pelo SUS permite que mãe, pai e filha, todos surdos, descubram o inédito prazer da audição.
Conheça a história de Érika, Emerson e Emily, uma família de surdos que está descobrindo os sons. Tudo graças a um aparelho, o ouvido biônico. Esse avanço tecnológico permite que sentimentos, que antes eram expressados por gestos, a linguagem dos sinais, ganhem a força de um sentido novo: a audição.
Lola entende a linguagem dos surdos mudos. Sabe a hora de deitar, a hora de passear. Emerson nasceu sem ouvir os sons do mundo, casou com Erika, também deficiente auditiva e tiveram uma filha, Emily. Quando Erika ainda estava grávida, o grande medo dela era que a filha nascesse sem poder escutar.
”Eu falava: ‘Olha Érica, eu não sei, mas eu sei também que filho de japonês, nasce japonês. Mas ela tinha aquela esperança de que ela não viesse surda”, diz Vilma Maria Simionatto, mãe da Erika.
Emily, quando nasceu, ouvia menos que Erika, a mãe.
“Eu chorei, porque eu lembrei da minha vida, como aquilo me impactou por falta de amigos, falta de comunicação. Não quero ver ela sofrer como eu passei”, diz Erika.
Os tempos eram outros. Quando Emily tinha quase dois anos, recebeu o implante coclear, o ouvido biônico, um equipamento eletrônico que substitui o ouvido de pessoas com surdez total. O aparelho é muito caro, mas foi colocado gratuitamente no Hospital das Clínicas de São Paulo.
Primeiro foi Emily, depois a mãe dela, Erika, e finalmente o pai, Emerson.
“No caso dele foi diferente da minha nora e minha netinha. Ele achava que estava dando choque nele, mas não era choque era o som que ele nunca tinha ouvido e parecia que estava estremecendo dentro dele. O médico falou que vai demorar de dois a três anos para ele conhecer todos os sons, para se acostumar com o som”, diz Meire Fernandes, mãe do Emerson.
O som é o que vem primeiro, antes da imagem. É o que dá forma às sensações. É o que cria o ambiente. É o som que dá o tom das emoções.
“Uma vez no trânsito ele disse: ‘O que é aquele barulho? É a ambulância’”, conta Erika.
Emily, por ser criança, foi quem teve a melhor adaptação e hoje escuta e sabe reconhecer todos os sons.
Foi por causa de Emily que Erika e Emerson se viram obrigados a também fazer o implante coclear. Emily, cada vez mais, não quer saber de conversar na linguagem dos gestos.
Erika está no meio do caminho. Conhece a linguagem dos gestos, mas é uma comunicação já apagada na sua vida. Ela está encantada com as descobertas dos mais variados sons.
“Quando pôs água no copo ela falou: ‘Que barulho lindo da água caindo no copo’”, conta a avó.
“Fiquei tão emocionada quando a fono pediu para eu falar alguma coisa. Comecei a falar e disse: ‘Nossa, a minha voz é muito rouca’”, diz Erika.
O encanto de ouvir o som da própria voz, o encanto de descobrir nela a própria identidade. Erika, agora, pode ouvir segredos. Pode falar baixinho no ouvido da filha e Emily, mesmo sem gostar da linguagem dos gestos, sabe reconhecer quando ela é necessária. Nesses momentos em que a filha quer que o pai entenda as coisas importantes que ela tem para lhe dizer.
“Fala para o papai que eu amo muito você e o papai”.
A menina, então, faz o gesto e abraça o pai.
Esse aparelho que toda a família está usando pode ser implantado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o país, gratuitamente.

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